Conto: “Mistérios de verão”

dezembro 7, 2009

Mistérios de verão
Mistérios de verão

Entre tantos objetos embaralhados, tais quais números de um jogo de sorte na precedência de acontecer, Safira buscava a carteira no fundo de sua bolsa. O dia estava escuro. Um rapaz, aparentemente adolescente, mostrava-se sem paciência e apressava a moça, dizendo que uma chuva estava por chegar, e que era melhor deixar aquilo para outro dia. Safira, porém, tinha certeza de ter saído de casa com a sua carteira na bolsa. Não queria, portanto, perder aquela oportunidade do destino por simples impaciência do rapaz.

Ele, contudo, estava prestes a partir e a deixar Safira por conta própria. Do céu, começavam os estrondos sonoros de violentas trovoadas. Os poucos sujeitos que ainda se aventuravam na rua, agora, saíam correndo, fugindo da força da Natureza. Safira, porém, não parecia se incomodar com o burburinho que vinha daqueles sujeitos que fugiam. Ela permanecia cega, na certeza de que no caos era possível uma fatia de ordem e, assim, ela acharia, em algum momento, a sua procurada carteira.

Mas o rapaz já desistia de esperar por Safira. “Agora está ficando perigoso”, ele resmungou ao se espantar com um raio que partia o céu. “Estou indo”, complementou em tom definitivo. E, sem esperar resposta, começou a recolher tudo o que era seu, a começar pelo realejo que trazia consigo.

Foi então que Safira, de um susto, achou sua carteira na bolsa. “Achei! Achei!”, ela exclamou com intensidade, tal qual uma vencedora, e já sentindo sobre a pele as primeiras geladas gotículas, ainda finas, da chuva que chegava.

Assim, o rapaz retardou sua saída e resolveu dar atenção à insistente mulher. Ela, por sua vez, tirou da carteira uma cédula de dois reais e a segurou firmemente, para que o vento não a levasse de entre seus dedos.

O rapaz, então, pediu que Safira tocasse com a mão direita o pássaro que ele trazia com ele. Ela seguiu seu conselho. Em seguida, ele pediu que ela desse um passo para trás, e que esperasse. O animal parecia um pouco assustado com a ventania que começava a ficar deveras forte, e com as gotas frias que aumentavam de intensidade, minuto a minuto.

Sem muita demora, porém, o pássaro se moveu na direção de um leque de cartões coloridos. Com seu bico, segurou e tirou um cartão daquele leque. Os olhos de Safira brilharam na escuridão do dia chuvoso.

Muito cuidadosamente, o rapaz retirou o cartão do bico do animal, e disse que aquela operação custaria dois reais. Safira entregou o dinheiro, cheia de contentamento e ansiedade, e recebeu seu cartão colorido, ainda dobrado, isto é, ainda fechado.

Em seguida, o rapaz guardou o dinheiro recebido num dos bolsos da calça e recolheu sua mochila, pássaro e cartões, sumindo, assim, em uma das nuvens de poeira que levantara do asfalto com toda aquela ventania. Safira ficou sozinha com seu cartão colorido em mãos, na iminência de abri-lo e desvendar o seu mistério.

Assim, logo ela abriu o cartão. Nesse instante, seus olhos ficaram imóveis com a sucinta e direta mensagem lida ali. (E do céu ressoou mais uma trovoada.)

Rapidamente a tempestade chegou e se firmou de vez. O dia se tornara profundamente negro. E dizem que nunca chovera tanto como naquela despretensiosa tarde de verão.

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