Seis dias para ser feliz

novembro 8, 2009

No primeiro dia, Rogério chegou tirando o paletó e deixando-o sobre uma das cadeiras da mesa de jantar. O dia lá fora entardecia. Algumas buzinas soavam, vindas da rua, e indicavam o princípio de engarrafamento. Rogério caminhou até as janelas da sala e fechou as cortinas, deixando apenas a penumbra correr junto à poeira sobre os móveis. Em seguida, procurou com os olhos sua única poltrona – e também a sua favorita – e a encontrou, com um couro ainda mais escuro, em um dos cantos do ambiente. Ao caminhar em direção ao móvel, Rogério foi tirando seus sapatos, sem ao menos abaixar-se. Tirou com os próprios pés. Ficou de meia, calça social e em mangas de camisa. Sentou-se com gosto naquele couro macio e negro. Fechou os olhos. E lembrou que, no dia seguinte, deveria entregar um relatório importantíssimo ao seu chefe.

No segundo dia, Rogério apresentava olheiras, e chegou ao escritório sem cumprimentar os seus colegas. Fechou-se em sua sala com olhos fixos na tela do computador, pensando se pediria um lanche àquela hora ou se aguardaria pela hora do almoço. Algum tempo depois, terminando um sanduíche de pasta de alho, Rogério atendeu a uma ligação de outro Estado e que se dizia urgente. Alguém lhe avisava da enfermidade de sua mãe, e de mais uma crise que ela tivera. Rogério lamentava e perguntava se a mãe havia apresentado melhoras. Disseram-lhe que sim. Rogério agradeceu a ligação e disse que, mais tarde, retornaria a chamada diretamente à mãe, para saber como ela estava.

No terceiro dia, Rogério voltava do almoço quando viu, sobre a lataria de seu carro, um arranhão generoso. Apesar de a ferida ter parecido proposital, Rogério não tinha a quem reclamar. Umedeceu seus dedos com saliva e friccionou por algum tempo aquele machucado. Mas nada mudou. Decidiu voltar ao escritório e, de lá, consultar algum pintor de carros. Rogério entrou no carro e girou a chave, dando partida no motor. Nesse instante, seu celular tocou. Rogério decidiu atender, antes de sair com o carro e, olhando para o visor de seu telefone, percebeu que era um número desconhecido. Pensou que, talvez, fosse alguém precisando de sua ajuda. Rogério atendeu a chamada, dizendo “alô”. Mas a chamada era uma ligação automática, uma propaganda de promoção de milhas de viagens. E Rogério nem era de viajar.

No quarto dia, Rogério escovou os dentes com olhos pesados, pois ainda era muito cedo. O céu estava escuro, mas não era de chuva. Era uma manhã precoce que anunciava um dia quente. Rogério escovava a língua quando ouviu uma cigarra cantar do lado de fora, anunciando o verão. Cuspindo a espuma que limpava sua boca, Rogério ligou a ducha e decidiu que tomaria banho frio. Seu corpo nu refletia no espelho da pia e era uma silhueta bonita, mas borrada – Rogério estava sem seus óculos receitados para corrigir sua miopia. Enquanto a água descia forte e espirrava nos azulejos, Rogério percebeu que a sua toalha estava úmida, por conta do banho na noite anterior. Nu, porém, não cogitou ir até a lavanderia pegar o resto de suas toalhas que lá ele deixara para serem lavadas. Decidiu, assim, entrar logo no banho.

No quinto dia, Rogério achou graça de um programa que passava na TV. Seus dedos oleosos, por conta dos salgadinhos que comia, procuraram o botão de aumentar volume no controle remoto. Rogério colocou no mais alto volume. Não podia acreditar! As piadas que o programa apresentava eram muito divertidas. Assim, espichou seu corpo até uma mesinha que ficava ao lado de sua poltrona de couro negro, e procurou na gaveta daquele móvel uma caneta e um pedaço de papel. Seus dedos faziam tudo escorregar. A gordura em suas mãos manchou a folha em que tentava escrever o mote das principais piadas. A caneta não parava direito entre seus dedos. Rogério teve dificuldade de reconhecer a letra que escrevia as piadas e, estas, mal podiam ser reconhecidas com aquele tipo de grafia deformada. Rogério lamentou e comeu mais alguns salgadinhos. Deu vastos goles na cerveja que acompanhava aquele momento e, quando menos esperava, o programa divertido na TV tinha acabado. Rogério ficou sem as piadas escritas e perdeu as três últimas que seriam contadas pelo mais engraçado sujeito do programa, o apresentador.

No sexto dia, Rogério acordou e já estava claro lá fora. Era fim de semana, e Rogério decidiu que sairia para respirar ar fresco. Mas seu relógio indicava ser ainda manhã, e ele decidiu que ficaria mais um pouco pela cama. Rogério dormiu. O tempo passou. Quando acordou, já era início de tarde e o calor, do lado de fora de suas cortinas, já era insuportável. Rogério decidiu ficar em casa e ligou o ar-condicionado. Sentou-se em sua poltrona preferida e, com o telefone em mãos, pediu almoço ao restaurante que ficava do outro lado da rua. Avisaram-no que levaria cerca de meia hora. Rogério achou que passaria rápido. De short e descalço, permaneceu em sua poltrona, esperando a hora passar.

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Uma resposta to “Seis dias para ser feliz”

  1. Fernanda Paz Says:

    Olá!
    Obrigada pela visita e comentário no meu blog. Sempre fico feliz com novos leitores! 🙂
    Vou ler seu blog com mais calma e logo, logo volto pra comentar teus escritos.

    Um beijo!


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